
Na cidade fronteiriça de terra vermelha de Blacktail, um jovem pistoleiro e um forasteiro hostil deixam o orgulho transformar uma tarde tranquila em tragédia.
Capítulo 1: A Terra Vermelha de Blacktail
Ora, se você cavalgasse por entre o capim alto do Território lá em '84, mais cedo ou mais tarde encontraria uma faixa de estrada de terra vermelha que cortava o vale como uma longa cicatriz sangrenta. Aquela estrada levava direto ao coração de Blacktail.
Blacktail não era o tipo de lugar onde um homem chegava por acaso. Não aparecia em mapa oficial algum do governo, e os delegados de Fort Smith só davam as caras quando eram obrigados. A cidade fora construída por gente que deixara para trás seus fardos depois da guerra — homens e mulheres negros que desmataram a mata, assentaram tábuas de cedro, cravaram pregos de ferro e ergueram um refúgio do nada, só com suor, oração e coragem. Tinham seu próprio ferreiro, sua própria venda de secos e molhados, seu próprio estábulo de aluguel e uma velha igreja no alto do morro, cujo sino tocava alto o bastante para despertar os mortos todo domingo de manhã.
O pessoal de Blacktail cuidava da própria vida, criava seu gado e mantinha os olhos no horizonte. Era um lugar tranquilo, na maior parte do tempo. Mas a paz não é algo que simplesmente fica parada; é algo que a gente precisa proteger. E toda cidade, por mais sossegada que seja, tem pelo menos uma erva daninha crescendo no jardim.
Em Blacktail, essa erva daninha era o jovem Caleb.
Caleb tinha apenas dezenove anos, mas se portava como se fosse cinquenta anos de más notícias condensados em um metro e oitenta de ossos e tendões. Tinha a pele da cor da nogueira-escura, olhos que nunca piscavam quando olhava para alguém e uma língua afiada como navalha. O pai morrera no Texas quando Caleb ainda era um pirralhinho, e a mãe trabalhara até os dedos sangrarem para criá-lo direito, mas Caleb tinha um espírito que não aceitava polimento nenhum.
Quando fez dezessete anos, já andava com uma turma desordeira ali perto da várzea do rio, aprendendo a beber aguardente de milho e sacar um ferro depressa. Aos dezenove, trazia um pesado Colt .44 pendurado baixo no quadril, solto num coldre de couro gasto que untara até ficar liso como sebo.
Caleb caminhava pelas calçadas de madeira de Blacktail como se cada tábua fosse dele. Encarava os anciãos sentados diante da barbearia, cuspia tabaco bem na ponta da bota de um homem só para ver se ele dizia alguma coisa e entrava no saloon à procura de quem quer que lhe lançasse um olhar atravessado.
— Aquele rapaz vai encontrar a cova antes de encontrar o juízo — costumava dizer o velho reverendo Harris, apoiado em sua bengala de nogueira enquanto via Caleb desfilar diante da igreja. — Quando um homem carrega fogo no bolso aonde quer que vá, uma hora acaba pondo fogo na própria casa.
E Caleb não dava a mínima. Achava que era feito de ferro. Achava que era a coisa mais feroz respirando sob o sol da pradaria.
Capítulo 2: Uma Nuvem de Poeira no Horizonte
Era meados de agosto, e o calor descia tão pesado que parecia um cobertor de lã molhada apertado contra o rosto. O capim da pradaria estava seco como graveto, estalando sob os pés como galhos partidos, e até os cães ficavam à sombra das varandas, quentes demais para latir.
Por volta das duas da tarde, o sino acima da ferraria tocou de leve, por acidente, quando o vento aumentou. Sobre a crista a leste, uma fina coluna de poeira branca começou a subir contra o céu azul.
O velho Josiah, sentado na varanda da venda de secos e molhados com seu canivete e um pedaço de pinho-cedro, parou de entalhar. Apertou o olho bom contra o clarão.
— Vem cavaleiro — resmungou Josiah, sem se dirigir a ninguém em particular.
Um cavaleiro solitário surgiu da nuvem de poeira, trotando devagar e deliberadamente pelo meio da rua. O forasteiro montava um garanhão baio de pernas compridas, com o pelo riscado de suor seco e sal. Mas não foi o cavalo que chamou a atenção de todos — foi o homem na sela.
Ele era pálido — tão pálido que o sol lhe queimara o pescoço até deixá-lo cru e vermelho como carne fresca. Usava um chapéu cinzento de abas moles, empoeirado e puxado para baixo sobre um nariz pontudo, de falcão, e seus olhos de um azul pálido e desbotado pareciam atravessar a pessoa sem enxergá-la. Um pesado cinturão de armas de couro apertava-lhe a cintura, com um par de revólveres niquelados de cabos de madrepérola.
Seu nome era Miller. Ninguém em Blacktail sabia de onde viera e, para dizer a verdade, ninguém queria perguntar. Era o primeiro homem branco a pisar na rua principal em quase dois anos, e chegara trazendo um ar que cheirava a encrenca a quilômetros de distância.
Parou o cavalo diante do bebedouro em frente ao saloon, passou a perna por cima da sela e deixou as botas baterem na terra com um baque pesado e oco. Não fez nenhum daqueles gestos educados de tirar o chapéu. Não disse «bom dia» às mulheres que passavam com suas cestas de compras. Apenas ficou ali, limpando a boca com as costas de uma luva suja, olhando os prédios de madeira e os rostos negros que o encaravam das varandas.
Miller era um homem que passara a vida inteira acreditando que o mundo lhe pertencia só por causa da cor da pele, por mais baixo ou cruel que fosse o modo como vivia. Viera para o Território fugindo de um juiz enforcador do Kansas e trouxera consigo toda a amargura e todo o fel. Olhar para Blacktail, ver aquelas pessoas vivendo livres, construindo suas próprias casas e cuidando dos próprios assuntos, fez algo repugnante coalhar dentro de seu peito.
Amarrou o baio à amurada, cuspiu uma faixa escura de sumo de tabaco no bebedouro — estragando a água fresca que os cavalos bebiam — e subiu pisando duro na calçada de madeira.
Capítulo 3: A Faísca e a Pólvora
Caleb estava sentado dentro do saloon, recostado numa cadeira de espaldar com ripas, as botas apoiadas sobre uma mesa de cartas. Tinha um copo de uísque barato na mão e um mau humor fermentando na cabeça.
Quando as portas vai e vem se abriram e Miller entrou, a sala ficou quieta num instante. O pianista parou os dedos bem acima das teclas de marfim, deixando um acorde desafinado suspenso no ar pesado. O barman, um homem corpulento chamado Big John, que tinha cicatrizes nos antebraços dos tempos em que trabalhava como ferreiro, pegou um pano e começou a limpar o balcão, sem tirar os olhos do recém-chegado.
Miller não tirou o chapéu. Foi direto ao balcão, atirou uma moeda de prata sobre a madeira escura e berrou: — Uísque. E não me venha com aquela lavagem aguada que vocês guardam para si.
Big John não mexeu um músculo durante três longos segundos. Ficou ali, imponente atrás do balcão, com o maxilar firme como granito. — Aqui só servimos um tipo de uísque, senhor — disse Big John, com a voz profunda como um trovão sobre as colinas. — E custa cinco centavos o copo.
No canto dos fundos, as pernas da cadeira de Caleb bateram no assoalho com um estalo seco.
Caleb se levantou devagar, ajeitou as calças e deslizou a mão direita para baixo, até os dedos repousarem de leve no cabo de nogueira do Colt. Caminhou até o balcão com aquele gingado lento, de pantera, que passara anos praticando diante do espelho.
— Está falando alto demais para um homem que se perdeu — disse Caleb, parando uns dois metros atrás de Miller. — Isto aqui é Blacktail. A gente não aceita esse tipo de desaforo na nossa casa.
Miller se virou bem devagar, estreitando os olhos pálidos enquanto examinava Caleb de cima a baixo. Viu um moleque — um rapaz de dezenove anos tentando bancar o gigante. Um sorriso maldoso e zombeteiro se espalhou pelos lábios finos de Miller.
— Ora, vejam só — arrastou Miller, com a voz áspera como lixa raspando pinho. — Olha só quem saiu se arrastando debaixo da varanda. Não pedi conversa sua, garoto. Por que não volta trotando para a casa da sua mãe antes de se machucar?
A palavra «garoto» ficou suspensa no ar como uma nuvem de gás venenoso.
O rosto de Caleb escureceu como uma nuvem de tempestade. Suas narinas se dilataram, e os nós dos dedos ficaram brancos onde a mão pairava sobre o coldre. Ninguém chamava Caleb de «garoto» — nem em Blacktail, nem em lugar nenhum.
— Saia lá fora — cuspiu Caleb, com a voz tremendo de uma raiva sombria e tola. — Saia lá fora agora mesmo e repita isso na minha cara.
Miller soltou uma risada curta, seca e sem humor, e tomou um pequeno gole da garrafa que pegara no balcão. — Saio quando bem entender. Mas, se eu passar por aquela porta, garoto, você não vai gostar do fim desta tarde.
— Lá na rua — repetiu Caleb, com o peito arfando. — Daqui a cinco minutos. Ou eu atiro em você aí mesmo.
Caleb girou nos calcanhares e saiu pelas portas vai e vem, escancarando-as com tanta força que elas balançaram para a frente e para trás, rangendo ao vento quente da pradaria.
Capítulo 4: O Caminho de Quarenta Passos
A notícia se espalhou por Blacktail como fogo em mato seco no outono.
— Caleb está desafiando um forasteiro!
— É aquele homem branco que veio do norte!
Os lojistas viraram as placas das portas para «Fechado» e correram os pesados ferrolhos de ferro. As mães agarraram os filhos pelos braços, tirando-os das calçadas de madeira e puxando-os para dentro, atrás das grossas venezianas de carvalho. O velho reverendo Harris saiu correndo da igreja, as abas do casaco preto esvoaçando ao vento, tentando chegar à rua principal antes que o diabo cobrasse sua parte, mas Big John segurou o pregador pelo braço na esquina do estábulo.
— Não vá lá, reverendo — disse Big John baixinho, com a voz pesada de tristeza. — Oração nenhuma vai deter o que está vindo. Os dois estão doentes por dentro.
A rua principal de Blacktail ficou vazia até parecer uma cidade fantasma. A única coisa que se movia era uma bola de arbustos rolando devagar sobre a terra vermelha e o vento seco levantando pequenos redemoinhos de poeira diante da barbearia.
Caleb estava parado bem no meio da rua, sob o clarão pleno do sol da tarde. O suor escorria pelas têmporas e ardia nos olhos, mas ele não o enxugava. Mantinha os pés bem plantados e afastados, os joelhos ligeiramente flexionados e os olhos fixos nas portas duplas do saloon. Estava transbordando de orgulho — aquele orgulho terrível e cego que faz um homem se achar imortal até o chumbo frio lhe atingir os ossos.
As portas do saloon se abriram.
Miller desceu da varanda, as botas levantando duas pequenas nuvens de poeira vermelha ao tocar a rua. Andava sem pressa, como um homem saindo para buscar a correspondência, mas seus olhos pálidos eram frios como pedra. Avançou uns quarenta pés, parou e virou de lado, oferecendo um alvo estreito como veterano de duelos.
— Você ainda tem tempo de dar meia-volta e fugir, garoto — gritou Miller, com a voz que atravessava o vento com clareza. — Nem vou atirar nas suas costas.
— Cala a boca! — gritou Caleb em resposta, a voz falhando só um pouquinho com a adrenalina que lhe corria pelo sangue. — Você não vai sair desta cidade vivo!
— Você que sabe — sussurrou Miller.
O mundo inteiro pareceu encolher até aquele trecho de quarenta pés de terra vermelha. O sol castigava sem piedade, esquentando o metal das armas até ficarem quentes ao toque. Em algum lugar distante, um corvo soltou um único grasnido áspero.
Então veio o silêncio — aquele silêncio morto e pesado em que os segundos se esticam até parecerem horas.
Capítulo 5: Eles Não Viveram para Contar
Ninguém podia dizer ao certo quem levou a mão à arma primeiro.
Alguns que espiavam pelas frestas das venezianas disseram que o ombro de Caleb se contraiu primeiro. Outros disseram que a mão de Miller já se movia antes mesmo de Caleb terminar de falar. Não fazia diferença. Quando dois homens saem à caça da morte, ela não os faz esperar muito.
CRAC-CRAC!
Os dois tiros foram disparados tão próximos um do outro que soaram como uma única explosão imensa, ecoando pelas fachadas de madeira. O cheiro de pólvora negra queimada se espalhou pela rua, espesso e sulfuroso, enevoando o espaço entre eles com uma fumaça azul-acinzentada.
Por um segundo — apenas um segundo aterrorizante — nenhum dos dois caiu.
Ficaram parados na poeira, olhando um para o outro através da fumaça que se dissipava, como duas estátuas esculpidas em madeira.
Então Caleb deu um passo trêmulo à frente. Olhou para o próprio peito, com pura confusão estampada no rosto jovem. Bem sobre o coração, um círculo escuro e úmido se espalhava depressa pela camisa jeans, tornando preto o tecido azul. Os joelhos vacilaram e cederam sob ele como palha molhada. O Colt escorregou-lhe dos dedos e caiu de leve na terra, e o jovem Caleb tombou para a frente, batendo forte no chão com o rosto voltado para o morro da igreja. Soltou um longo suspiro entrecortado... e então ficou imóvel.
A pouco mais de um metro e meio, Miller soltou uma risada cruel — um som agudo e rouco — e ergueu a pistola niquelada como se quisesse se gabar para a rua vazia.
Mas, quando levantou o braço, seu corpo enrijeceu por completo.
Caleb também não errara. O tiro do rapaz acertara Miller bem de lado, atravessando-lhe as costelas e penetrando fundo nas vísceras. Miller deixou cair o revólver. Um grosso jorro escarlate borbulhou de sua boca, escorreu-lhe pelo queixo e manchou a camisa empoeirada.
Seus olhos pálidos reviraram, as pernas cederam por completo e ele desabou de lado no bebedouro, derrubando-o e espalhando lama vermelha e sangue por toda a calçada de madeira. Deu dois coices com as botas contra as tábuas, soltou um arquejo úmido e morreu ali mesmo, ao lado do cavalo.
A fumaça dos tiros se dissipou devagar, levada pela brisa da pradaria.
A rua principal de Blacktail voltou a ficar completamente silenciosa. O sol continuou ardendo no céu, indiferente aos dois corpos caídos na terra, a quarenta pés um do outro.
O velho reverendo Harris caminhou devagar até a rua, cabeça baixa e mãos entrelaçadas com força atrás das costas. Parou entre os dois mortos — o rapaz mais cruel da cidade e o forasteiro odioso que chegara de lugar nenhum — e olhou para eles. Agora pareciam pequenos. Apenas dois montes frios de roupa e barro, lado a lado na terra, com todo o orgulho e a raiva lavados para dentro do solo.
— Senhor, tende piedade de suas almas tolas — sussurrou o reverendo ao vento.
As pessoas abriram as portas devagar e saíram para as varandas, contemplando todo aquele desperdício. Ninguém comemorou. Ninguém festejou. Não houve vitória, nem glória, nem lição que já não tivesse sido paga mil vezes antes.
Apenas dois homens que deixaram o orgulho arrastá-los para a terra antes da hora. E não viveram para contar.