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A Parede Oca

Textos de Jorge Sanchez
Um pintor examina, num escritório vitoriano empoeirado, um embrulho revestido de lona encontrado dentro de uma parede de gesso quebrada

Um pintor descobre um maço de dinheiro escondido dentro de uma casa vitoriana e precisa decidir o que fazer com ele.

Capítulo I: Poeira e Gesso

Arthur Miller era um homem cuja vida se media em demãos de tinta. Aos quarenta e dois anos, tinha a pele ao redor das cutículas permanentemente manchada de branco-acinzentado, cor de casca de ovo, e o ombro direito guardava uma dor surda e persistente que o despertava todas as manhãs às cinco. Não se importava com o ombro, nem com o cheiro de solvente mineral que impregnava suas jaquetas de lona. Pintar era um trabalho silencioso, e Arthur preferia o silêncio.

A casa na Blackwood Lane era tudo, menos silenciosa em seu silêncio. Era uma ampla e fria construção vitoriana, desocupada havia três anos após a morte do antigo proprietário, um excêntrico juiz aposentado chamado Alistair Vance. Um homem de meia-idade chamado Julian Sterling comprara o imóvel em leilão seis semanas antes, decidido a modernizar o térreo sem mexer nos acabamentos originais.

— Primeiro, o escritório — dissera o sr. Sterling a Arthur na manhã de terça-feira, apontando com um anel de ouro no dedo mínimo da mão direita para um cômodo escuro, revestido de madeira e com um leve cheiro de podridão seca. — Quero cobrir o carvalho escuro com um cinza-ardósia impecável. Vamos clarear isso.

Arthur sentira uma breve pontada de pesar pelo carvalho escuro — era madeira nobre, antiga —, mas trabalho era trabalho. Estendeu as lonas de proteção, cobriu o piso com fita adesiva e começou a raspar o papel de parede descascado ao longo da parede oeste.

Aconteceu por volta das duas da tarde de quinta-feira.

Arthur usava sua pesada espátula de aço para remover uma mancha resistente de gesso danificado pela água sob o caixilho da janela. Quando bateu num ponto macio perto do rodapé, a ferramenta não se chocou contra sarrafos ou tijolos sólidos. Avançou com um baque surdo e oco, afundando dez centímetros na parede.

Arthur parou, passando o polegar pelo cabo de madeira da espátula. Bateu com o cabo na área ao redor.

Toc. Toc. Oco.

A curiosidade venceu sua disciplina habitual. Ele cortou um quadrado de quinze centímetros de sarrafo apodrecido e enfiou a mão enluvada na cavidade. Os dedos roçaram algo macio, porém rígido — não era isolamento, nem lã, mas lona grossa, bem embrulhada em fita isolante espessa.

Arthur alargou o buraco com o pé de cabra, o suor se acumulando na nuca. Enfiou as duas mãos e puxou para fora um embrulho retangular do tamanho de uma caixa de sapatos, pesado o bastante para forçar seu pulso. Sentou-se sobre a lona de proteção, cercado de pó branco, e cortou a fita preta com o estilete.

Dentro havia quatro maços compactos de notas de cem dólares, presos por cintas originais do Federal Reserve. As mãos de Arthur começaram a tremer enquanto folheava a borda de um dos maços. As notas eram verdadeiras, nítidas e sem circulação.

Contou os quatro maços. Quarenta mil dólares.

Capítulo II: O Peso do Dinheiro

Arthur não terminou de pintar o escritório naquela tarde. Guardou as ferramentas mais cedo, embrulhou o pesado maço num pano sujo de pintor e o colocou sob uma pilha de lonas na traseira de sua velha van Ford. Voltou para casa em completo silêncio, desligando o rádio antes mesmo de ele começar a tocar.

Em seu pequeno bangalô de dois quartos, Arthur pôs o dinheiro sobre a mesa da cozinha. As notas verdes pareciam brilhar contra o laminado amarelo e gasto. Quarenta mil dólares não eram uma fortuna para um milionário, mas, para Arthur, significavam cinco anos com menos dores nos joelhos. Uma transmissão nova para a van. O tratamento dentário que adiava desde o inverno anterior.

Naquela noite, Arthur não dormiu.

Deitado de costas, com os olhos fixos no ventilador de teto, escutava a casa se acomodar. Cada rangido do assoalho soava como passos. Cada rajada de vento contra a janela parecia alguém chamando seu nome.

Não é seu, sussurrou uma voz dentro do peito.

Ninguém sabe que está lá, retrucou outra voz. O juiz Vance morreu. Sterling comprou a casa por uma pechincha. O dinheiro ficou no escuro por trinta anos.

Às três da manhã, Arthur se levantou e voltou à cozinha. Abriu a gaveta, pegou um dos maços e o levou ao nariz. Cheirava a poeira, tinta e idade.

Pensou em Julian Sterling — o blazer azul-marinho elegante, os sapatos caros de couro, a casualidade com que falava em trocar o telhado inteiro só para combinar melhor as cores. Sterling não precisava de quarenta mil dólares. Nem notaria a falta deles.

Ainda assim, quando o sol começou a surgir por entre as persianas, Arthur viu o próprio reflexo na janela da cozinha. Vivera quarenta e dois anos como um homem honesto. Seu pai, carpinteiro, sempre lhe dizia: “A palavra de um homem e as mãos de um homem são tudo o que ele realmente possui. Não estrague nenhuma das duas.”

O dinheiro sobre a mesa parecia menos uma bênção do que uma âncora a arrastá-lo para um lago escuro.

Capítulo III: A Devolução

Às oito da manhã de sexta-feira, Arthur estacionou a van na longa entrada de cascalho da Blackwood Lane. O estômago se revirava numa mistura nauseante de alívio e medo. E se Sterling chamasse a polícia? E se Sterling o acusasse de roubar outras coisas da casa?

Arthur ergueu a sacola de lona com o dinheiro e subiu os degraus da varanda da frente. Bateu à pesada porta de carvalho. Julian Sterling atendeu pouco depois, segurando uma caneca de café fumegante e vestindo uma impecável camisa branca de linho.

— Ah, Arthur! Começou cedo hoje? — disse Sterling, dando passagem para que ele entrasse. — Terminou de selar os acabamentos do corredor?

— Sr. Sterling — começou Arthur, com a voz rouca. Engoliu em seco e limpou a garganta. — Preciso lhe mostrar uma coisa. No escritório.

Sterling pareceu surpreso, mas seguiu Arthur pelo corredor. Arthur colocou a pesada sacola de lona sobre os cavaletes de madeira no centro do cômodo. Enfiou a mão, tirou os quatro pacotes amarrados com fita e os dispôs cuidadosamente sobre a lona de proteção.

— Encontrei isto ontem — disse Arthur, olhando com firmeza para o assoalho. — Atrás dos rodapés na parede oeste. O gesso estava podre. Abri e encontrei isto lá dentro.

Sterling encarou os maços de notas verdes. Por um longo momento de silêncio, o único som no cômodo foi o tique-taque de um alto relógio de caixa no vestíbulo. Aproximou-se, pegou um dos maços e o virou nas mãos. Uma expressão lenta e divertida lhe tomou o rosto.

— Quarenta mil dólares — acrescentou Arthur em voz baixa. — Está tudo aqui, até o último centavo. Levei para casa ontem à noite... quase não trouxe de volta. Mas pertence a esta casa, e esta casa pertence ao senhor.

Capítulo IV: Uma Divisão Justa

Julian Sterling soltou uma risada breve e baixa. Pousou a caneca de café no parapeito empoeirado da janela e olhou para Arthur com uma mistura de diversão e respeito genuíno.

— Arthur — disse Sterling com gentileza, balançando a cabeça. — Você passou a noite em claro por causa disso, não foi?

— Um pouco — admitiu Arthur, ainda com a mão apoiada nervosamente na sacola de lona.

Sterling pegou dois dos maços pesados, equilibrando-os na palma da mão. — Quando comprei esta casa em leilão, comprei a construção e o terreno. O condado não sabia que esse dinheiro estava nos sarrafos, e eu também não. Tecnicamente, é um bem esquecido — nenhum de nós o colocou aqui, e o juiz Vance não deixou herdeiros.

Ele deslizou dois dos maços de notas de cem dólares de volta pelo cavalete de madeira, na direção de Arthur, e ficou com os outros dois.

— Vinte mil para quem encontrou e vinte mil para quem é dono da parede — disse Sterling, com um sorriso prático. — A história de quem acha fica com o que encontrou pode virar uma confusão no tribunal, mas meio a meio deixa dois homens honestos satisfeitos.

Arthur olhou para os vinte mil dólares sobre a lona. Eram suficientes para consertar a van, pagar suas contas e tirar um mês de folga sem culpa.

— Tem certeza disso? — perguntou Arthur.

— Absoluta — respondeu Sterling, estendendo a mão. — Considere um bônus pelo preparo excepcionalmente cuidadoso das paredes. Agora, vamos deixar esse cinza-ardósia pronto até segunda-feira.

Arthur ficou no escritório silencioso, apertando a mão de Sterling. O ombro ainda doía, e a poeira continuava flutuando à luz da manhã, mas, quando estendeu a mão para pegar o pincel, o peso que carregava no peito havia desaparecido.

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