
Uma caminhonete de plataforma de 1921 enguiçada paralisa o trânsito moderno da hora do rush, até que dois grupos falando dialetos diferentes encontram uma maneira de voltar a andar juntos.
Página 1: O congestionamento
As veias de concreto da metrópole estavam completamente entupidas. A hora do rush das cinco da tarde parara de vez, derramando calor e tensão sobre seis faixas de asfalto tostado pelo sol. Bem no epicentro do congestionamento havia uma visão que desafiava toda a lógica municipal moderna: uma caminhonete Oldsmobile de plataforma, de 1921, enferrujada e rangendo, abarrotada de caixotes de madeira, cadeiras de balanço entalhadas à mão e um fogão a lenha de ferro amarrado com cordas. Uma fumaça negra e oleosa jorrava do capô aberto, formando uma nuvem de poluição localizada bem no meio da pista.
Debaixo do capô levantado, Pa Zeb, vestindo um macacão jeans desbotado e um chapéu de feltro manchado de suor, coçava o queixo com o polegar enegrecido de graxa. Encarava o bloco metálico trêmulo como se fosse uma mula teimosa que se recusasse a atravessar um riacho.
— Pois bem, ora bolas... — arrastou as palavras Pa Zeb, com a voz grave e carregada do sertão. — Desta vez ela tossiu e cuspiu até as tripas, Zeke. Acho que aquele troço debaixo do capô ficou sem vapor de vez.
Ao lado dele estava Big Zeke, um rapaz enorme, que parecia feito de nogueira maciça. Usava um pedaço de corda de varal como cinto e segurava uma pesada chave de ferro sem saber muito bem o que fazer com ela. — Puxa vida, Pa — comentou Zeke, piscando devagar para um fio solto e desfiado. — Acha que o radiador precisa de uma boa besuntada de banha de porco, ou será que vou buscar uma marreta maior e dar uma bela pancada no virabrequim?
Antes que Pa Zeb pudesse responder, uma senhorinha miúda e cheia de energia — Ma Pearl — saltou da carroceria como uma lutadora experiente de peso-mosca. Brandia uma colher de pau pesada numa das mãos e segurava na outra um jarro de grés marcado com três X grosseiros. Os óculos estavam tortos sobre seu nariz largo, e a touca esvoaçava nos gases quentes do escapamento.
— Sai da frente, seu paspalho descomunal! — berrou Ma Pearl, acertando Big Zeke no quadril com o cotovelo. — Vocês, rapazes, não saberiam distinguir um carburador quebrado da bunda de um gambá! Zeb, passe essa chave inglesa antes que eu lhe dê uma varada de nogueira no traseiro!
Página 2: O encontro com a modernidade
Logo atrás do carroção de madeira que sacudia estava um lowrider modificado, pintado de violeta metálico e tão rebaixado que praticamente beijava o asfalto. Lá dentro, Marcus — vestido com uma regata branca impecável, grossas correntes de ouro e óculos escuros — vibrava de frustração. Esmurrou o volante personalizado com as duas palmas e enfiou a cabeça pela janela do motorista.
— Ei, na moral, que diabos de absurdo de San Andreas é esse?! — gritou Marcus, com a voz ecoando nas barreiras de concreto da rodovia. — Vocês estão bloqueando a porcaria da via expressa inteira com uma exposição inteira de museu de antiguidades! Cara, meu carro está fervendo, meu ranking está caindo, e vocês aí brincando de Casinha na Estrada! Desobstruam a pista, parceiro!
De cima do caixote mais alto da caminhonete, uma menina chamada Mary Lou — vestida com um vestido de algodão remendado — saltou para o asfalto quente com uma graça sem esforço. Trazia um gambá sonolento nos braços. Sorriu calorosamente para Marcus, sem se abalar nem um pouco com a raiva dele.
— Ah, moço, não fique todo ouriçado! — disse Mary Lou, com a voz alegre e melodiosa. — Este aqui é o Barnaby! Ele fica bem arisco quando o pessoal grita alto. Quer segurá-lo enquanto o Big Zeke conserta o combustor interno?
Marcus recuou para o assento de couro, encarando a criatura com absoluto horror. — Afasta de mim esse duende de estrada com rabo de rato, mana! Estou tentando fazer uma entrega no centro antes que a rapaziada monte um perímetro, e vocês aí com um trator de 1902 enguiçado, parando a cidade inteira! Isso aqui não é nível cinco de procurado, é nível cinco de perda de tempo!
Página 3: Um choque de dialetos
Um cupê urbano elegante entrou no estreito espaço ao lado do lowrider de Marcus. Tiana, uma mulher de olhar perspicaz e jaqueta de couro elegante, desceu na rodovia e cruzou os braços enquanto observava a cena bizarra. Seu olhar passou da pintura roxa reluzente de Marcus para os caixotes de madeira e o gambá sonolento nos braços de Mary Lou.
— Ei, Marcus, fica de boa — disse Tiana com frieza, caminhando até a frente da caminhonete. — Para de latir para os mais velhos, cara. Você vem falando esse dialeto pesado de rua e eles nem sabem de que servidor você saiu. Senhora! — chamou Ma Pearl. — Vocês precisam de reboque ou quê? Porque esse congestionamento já está se estendendo por quase cinco quilômetros, até o bulevar!
Ma Pearl girou nos calcanhares, brandindo a colher de pau como uma espada. — Não me venha com “senhora”, mocinha! Eu consertava bloco de trator quando seu vovozinho ainda estava enrolado em cueiros! Agora dê licença, vou despejar uma gota do meu remédio para reumatismo direto no duto de admissão!
Tiana ergueu uma sobrancelha e se aproximou para inspecionar o compartimento do motor. Olhou para a bateria exposta e para a correia do ventilador completamente estraçalhada, pendurada como espaguete.
— Calma, calma — disse Tiana, mudando para um jargão claro e direto. — Certo, chefe. A linha principal está rachada, a caixa de faísca está completamente zerada e o possante ficou sem carga na bateria. Sem caô, esse carro está morto na água.
Pa Zeb piscou, encarando Tiana como se ela falasse grego antigo. — O... possante? Carga? Pois bem, mocinha, a gente não carrega possante nenhum para a Betsy aqui, e o único suco que temos é um pote de ameixa fermentada na caixa térmica.
Página 4: A faísca
— Ei, espera aí! — gritou Marcus, saltando do lowrider ao ver Ma Pearl destampar o jarro de grés. O cheiro do destilado clandestino puro, de 190 proof, atingiu o ar poluído da tarde como os gases de um motor a jato. — Isso é... ei, isso é combustível de aguardente clandestina pura?! Minha nossa, você está tentando explodir o bairro inteiro ou desbloquear um turbo secreto?! Isso vai derreter o bloco do motor, na moral!
— Agora se acalme, rapaz — disse Pa Zeb com toda a tranquilidade, apoiado no radiador. — A poção da Ma curou a febre do pulmão de duas mulas e de um peru lá em Bugscuffle. Ela entende de torneira.
Tiana sorriu de lado, olhando do destilado de alto teor alcoólico para a bateria descarregada. — Quer saber? Ela não está completamente errada. A acidez dessa aguardente é alta o bastante para remover a corrosão pesada desses terminais mortos. Marcus, abre o porta-malas. Passa aqueles cabos de partida grossos.
Big Zeke puxou a corda do varal de sua cintura e a passou pelas polias do ventilador, no lugar onde a correia estraçalhada estivera. Deu um nó bem apertado, ergueu o macacão e sorriu. — Acho que aguenta até a próxima saída.
Marcus arregalou os olhos. — Ei, não encosta na bateria do meu possante com essa coisa enferrujada—
Antes que Marcus terminasse a frase, Big Zeke arrancou os cabos de cobre das mãos de Tiana e os prendeu de uma vez no polo da bateria da caminhonete, sem hesitar nem por um instante.
KRAZZZZ-ZZZT! Uma chuva de faíscas azul-brilhantes irrompeu debaixo do capô, iluminando o céu escurecido do fim de tarde.
— Olha só, Pa! — comemorou Big Zeke em voz alta. — Liguei os fios de raio na caixa de faísca!
Página 5: O motor ruge
CABUM-PUF-PUF-PUF-PUF!
Um forte estouro de retorno ecoou pela rodovia como um tiro, seguido por uma nuvem espessa de vapor branco. O motor antigo engasgou violentamente, sacudiu toda a estrutura da caminhonete e então — milagrosamente — começou a roncar num ritmo constante. Tchunk-tchunk-tchunk-tchunk. A corda de varal de Zeke girou em torno das polias do ventilador, aguentando por enquanto. O radiador zumbia, e o cheiro de ameixa tostada e etanol tomou o ar.
Tiana caiu na gargalhada, erguendo as mãos. — Não acredito... não é possível que essa gambiarra caipira tenha mesmo feito o motor pegar!
Marcus balançou a cabeça em absoluto espanto, um sorriso largo surgindo no rosto apesar de si mesmo. Ajustou os óculos escuros e fez um sinal de paz na direção da cabine. — Beleza, minha nossa! Respeito! Acho que a barreira de dialeto não passa de um obstáculo pequeno! Tira esse tanque enferrujado daqui antes que a prefeitura apreenda vocês!
Pa Zeb subiu ao banco do motorista e se acomodou atrás do enorme volante de madeira. Tirou o chapéu de feltro na direção de Marcus e Tiana pela janela, enquanto o trânsito à frente enfim começava a andar.
— Agradeço muito, vizinhos! — gritou Pa Zeb acima do ronco constante do motor. — Cuidem-se, estão ouvindo?
— Pode deixar, chefe! Boa viagem! — gritou Tiana de volta enquanto caminhava até o carro.
A caminhonete antiga avançou aos solavancos, os caixotes de madeira chacoalhando alegremente enquanto ela seguia pela rodovia de concreto em direção ao centro da cidade. As palavras eram diferentes, os estilos não podiam ser mais distantes, mas, quando os dois grupos se juntaram de novo ao fluxo da cidade, as línguas partidas tinham posto todo mundo em movimento outra vez.